Quanto de água você precisa para ficar mais saudável e mais magro?

 

 

 

Quanto de água precisamos por dia?

 

 

 

 

Em 2007 o Bristish Medical Journal publicou um artigo escrito por Rachel Vreeman e Aaron Carroll com o título de Medical Myths [1]. Nesse artigo eles falam sobre afirmações que muitas vezes são consideradas verdadeiras, mas que não possuem embasamento científico. Entre elas encontramos as afirmações de que “o cabelo e as unhas continuam a crescer após a morte”, “usamos somente 10% da capacidade cerebral” ou “comer peru faz a pessoa ficar sonolenta”. Mas um dos mitos citados que com certeza gera controvérsias é de que “devemos tomar 2 litros de água por dia”.

 

Considerando que a água pode representar até 70% do nosso peso corporal e todos os nossos tecidos possuem água na sua composição (a água representa 80% do peso dos nossos músculos e 75% do peso do nosso cérebro) parece lógico dizermos que precisamos de água para manutenção de nossas funções fisiológicas e para nossa saúde. Mas, quanto de água é necessário? Precisamos mesmo de 2 litros por dia?

 

O crédito dessa recomendação pode ser dado ao famoso nutricionista americano Fredrick J. Stare que faleceu em 2002. Em um livro escrito em 1974 (Nutrition for Good Health) na página 175 o autor escreve: 

 

“Quanto de água é necessário a cada dia? Geralmente isso é bem regulado por diversos mecanismos fisiológicos, mas para o adulto médio, por volta de 6 a 8 copos a cada 24 horas e parte desta pode ser na forma de café, chá, leite, refrigerantes, cerveja, etc. Também frutas e vegetais são boas fontes de água.”

 

Um trabalho publicado em 2002 [2] teve como objetivo encontrar a origem e verificar as evidências científicas dessa recomendação. O trabalho incluiu meios eletrônicos de pesquisa, a literatura mais antiga que não está coberta pelas bases de dados eletrônicas e também a consulta de nutricionistas especializados no campo da sede e ingestão de líquidos. O autor conclui que não foram encontrados estudos científicos que apoiem essa recomendação e as pesquisas sobre alimentação e ingestão de líquidos que envolveram adultos de ambos os sexos sugerem que essa quantidade de água não é necessária quando considerando pessoas saudáveis.

 

Conclusão como essa foi obtida por Ronni Wolfi e seus colegas em 2010 [3] quando através de uma revisão da literatura não encontraram fundamentação científica para a ingestão de 2 litros de água por dia. Os autores também concluíram que a ingestão de uma quantidade menor do que a recomendada não trás prejuízos.

 

Um estudo observacional [4] que utilizou um questionário com ferramenta de avaliação para investigar a ingestão de líquidos de 3858 homens e mulheres com média de idade de 49 anos mostrou que a ingestão superior a 3 litros de água por dia não está associada com a diminuição do risco de morte assim como o risco de morte não aumenta quando a ingestão era menor do que 2 litros/dia. Este trabalho também concluiu que o aumento da ingestão de líquidos de 250 ml ao dia não melhora a função renal ao longo de 10 anos. Porém outros trabalhos observacionais demonstraram existir uma correlação entre o aumento da ingestão de líquidos e a diminuição do risco de doença arterial coronariana [5] e diminuição do risco de câncer de bexiga [6].

 

Todos os trabalhos observacionais, como os citados no parágrafo anterior, demonstram uma correlação entre duas variáveis e não é possível afirmar que exista uma associação de causa e efeito.

 

Por sua vez os estudos experimentais são mais indicados para avaliar a relação de causa e efeito. Em 2006 foi investigado se o aumento da ingestão diária de líquidos iria gerar algum efeito positivo ou negativo sobre homens saudáveis entre 55 e 75 anos [7]. As pessoas avaliadas foram divididas em dois grupos (uma das características de um estudo experimental), um deles foi orientado a aumentar sua ingestão diária de água em 1,5 litros e um segundo grupo manteve sua ingestão. Após 6 meses de estudo os resultados não demonstraram nenhum efeito sobre a função renal, sódio sanguíneo, pressão arterial e qualidade de vida.

 

As evidências demonstram que na presença de algumas doenças o aumento da ingestão de líquidos pode ser positivo. O aumento da ingestão de líquidos em conjunto com outras abordagens é capaz de reduzir o risco de ocorrência de pedras nos rins em pessoas com histórico dessa doença [8]. O aumento da ingestão de líquidos de forma isolada parece ser benéfico para indivíduos que tenham tido somente um episódio anterior de pedras nos rins, já para aqueles com um número superior a esse de crises anteriores o aumento da ingestão de líquidos somente é positivo se for feito em combinação com o uso de medicamentos específicos [9].

 

Além dos benefícios relacionados com algumas doenças como problemas cardiovasculares, câncer e pedras nos rins a ingestão de água pode estar relacionada com o emagrecimento.

 

Isto pode ser explicado pelo fato de que um dos determinantes da saciedade é o volume do alimento ingerido [10] e as refeições com maior volume de água, acrescida aos alimentos (como uma sopa de arroz e frango) ou a ingerida em separado (como acompanhamento de arroz e frango), contribui para o aumento do volume do alimento ingerido [11].

 

A ingestão de água antes de uma refeição pode contribuir para o aumento da saciedade durante a refeição, isto foi demonstrado em 1993 [12] quando a ingestão de 2 copos de água previamente ao café da manhã aumentou a sensação de saciedade durante a refeição.

 

Considerando as informações dos trabalhos observacionais e experimentais aqui citados podemos concluir que a recomendação de que devemos ingerir 2 litros de água apresenta influência positiva sobre alguns aspectos específicos da saúde em situações patológicas quando combinadas com medicações.

 

Contudo, de forma geral não esta ligada a mudanças efetivas na qualidade de vida e na mortalidade de pessoas saudáveis, assim como a ingestão reduzida de água durante o dia não trará prejuízos.

 

Grande abraço!

Carlinhos

 

Referências

  1. Vreeman RC, Carroll AE. 2007. Medical Myths. DOI: 10.1136/bmj.39420.420370.25

  2. Valtin H. 2002. “Drink at least eight glasses of water a day.” Really? Is there scientific evidence for “8 × 8”? DOI: 10.1152/ajpregu.00365.2002

  3. Wolfi R, et al. 2010. Nutrition and water: drinking eight glasses of water a day ensures proper skin hydration—myth or reality? DOI: 10.1016/j.clindermatol.2010.03.022

  4. Palmer SC, et al. 2013. Fluid intake and all-cause mortality, cardiovascular mortality and kidney function: a population-based longitudinal cohort study. DOI: 10.1093/ndt/gft507

  5. Chan J, et al. 2002. Water, Other Fluids, and Fatal Coronary Heart Disease - The Adventist Health Study. PMID: 11978586

  6. Michaud DS. 1999. Fluid Intake and the Risk of Bladder Cancer in Men. DOI: 10.1056/NEJM199905063401803

  7. Spigt MG, et al. 2006. The effects of 6 months of increased water intake on blood sodium, glomerular filtration rate, blood pressure, and quality of life in elderly (aged 55-75) men. DOI: 10.1111/j.1532-5415.2005.00606.x

  8. Fink AH, et al. 2012. Recurrent Nephrolithiasis in Adults - Comparative Effectiveness of Preventive Medical Strategies [internet]. PMID: 22896859

  9. Fink HA, et al. 2013. Medical management to prevent recurrent nephrolithiasis in adults: a systematic review for an American College of Physicians Clinical Guideline. DOI: 10.7326/0003-4819-158-7-201304020-00005

  10. Rolls BJ, et al. 1998. Volume of food consumed affects satiety in men. PMID: 9625090

  11. Rolls BJ, et al. 1999. Water incorporated into a food but not served with a food decreases energy intake in lean women. PMID: 10500012

  12. Lappalainen R, et al. 1993. Drinking water with a meal: a simple method of coping with feelings of hunger, satiety and desire to eat. PMID: 8287852

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