Sal é mesmo um problema para nossa saúde?

 

 

Quando você escuta as palavras sal e sódio, o que vem a sua cabeça?

 

Hipertensão e problemas cardiovasculares?

 

Tenho quase certeza que essa preocupação é sempre ligada com essa substância.

 

A informação da necessidade de redução da ingestão se sal é largamente divulgada.  A OMS recomenda uma ingestão máxima de sal de 5 gramas/dia (1), você também pode encontrar a recomendação de um valor menor do que 3 gramas/dia (2).

 

Contudo, a redução da ingestão de sal realmente é eficiente para reduções da pressão arterial? Ela realmente traz benefícios para saúde? Isso irá mesmo reduzir a mortalidade?

 

Antes de responder essas perguntas, preciso fazer um esclarecimento importante. Quando se fala em sal e problemas de saúde, na realidade a substância que é considerada a “vilã” é o sódio. Cada grama se sal contêm 0,4 gramas de sódio.

 

Então quando você lê que ingestão de sal deve ser de máximo 5 gramas e se possível menor do que 3 gramas por dia, isso significa no máximo 2 gramas e se possível menos de 1,2 gramas sódio por dia.

 

Como começou a associação entre sódio e hipertensão?

 

No ano de 1904 médicos franceses relataram que 6 de seus pacientes hipertensos gostavam de sal. O medo aumentou na década de 1970, quando o pesquisador do Laboratório Nacional de Brookhaven, Lewis Dhal, divulgou ter evidências inquestionáveis de que o sal era causa da hipertensão (3).  

 

Vocês sabem como ele conseguiu essa inquestionável evidência? Ele induziu a hipertensão em ratos com uma quantidade de sódio que equivalente a um ser humano ingerir meio quilo de sal! Isso mesmo, uma quantidade absurdamente impossível de ser ingerida.

 

Esse mesmo pesquisador, através de estudos observacionais, descobriu tendências populacionais de associação entre o consumo de sal e pressão arterial. Baseando-se nesse tipo de evidência científica, o Comitê de Nutrição e Necessidades Humanas do Senado Americano em 1977 divulgou um relatório oficial onde recomendava que os americanos cortassem seu consumo de sal em 50 e 85% (3).

 

O que dizem as evidências mais atuais?

 

Um trabalho publicado em 2013 (4) chegou à conclusão que as informações sobre os riscos da ingestão de sódio e da também da sua redução são inconsistentes. Isso acontece, pois as interpretações dos estudos observacionais realizados até aquela data eram divergentes e poderiam gerar a necessidade de revisão das recomendações oficiais.

 

Esse estudo (4) também nos forneceu informações importantes sobre a ingestão elevada e reduzida de sódio, que merecem ser reproduzidas.

 

O que é conhecido sobre a ingestão elevada de sódio? Há evidências de uma associação entre a alta ingestão de sódio (> 5 g / dia) e DCV, e nenhuma evidência de que a redução do sódio para aqueles com consumo elevado para a ingestão moderada cause danos.

 

O que deveria ser feito? Esforços para reduzir a ingestão de sódio devem visar pessoas que consumam alto teor de sódio. Por exemplo, em países como aqueles com ingestão moderada de sódio, evitar a alta ingestão deve ser uma meta. Em contraste, em países com alta ingestão média (por exemplo, China), isso deve ser complementado com estratégias baseadas na população para reduzir a ingestão de sódio na população como um todo, visando fontes-chave de excesso de sódio na dieta (por exemplo, alimentos processados ​). As recomendações sobre redução de sódio devem ser incorporadas às recomendações gerais sobre padrões alimentares saudáveis, como o aumento do consumo de frutas e vegetais, etc.

 

O que é conhecido sobre a ingestão moderada de sódio? Não há evidências convincentes de que a ingestão moderada de sódio (3 a 5 g / dia) esteja associada a um risco aumentado de DCV em comparação com níveis mais baixos de consumo de sódio. Embora existam evidências convincentes (de estudos em indivíduos de alto risco) que a redução da ingestão de sódio de níveis moderados para níveis mais baixos tenha um efeito modesto na pressão arterial de ensaios clínicos, também há evidências de que a baixa ingestão pode estar associada a um risco aumentado de CV morte e hospitalização por insuficiência cardíaca de estudos prospectivos de coorte.

 

O que deveria ser feito? A única maneira definitiva de esclarecer a incerteza é conduzir um ensaio controlado randomizado em grande escala, avaliando o efeito da redução da ingestão de sódio de níveis moderados a baixos nos desfechos de DCV. Embora existam dificuldades logísticas para realizar esses testes, o desafio de levar populações inteiras a consumir dietas com baixo teor de sódio é monumentalmente maior.

 

Existem riscos em ingerir muito sódio? Existem benefícios em reduzir a ingestão de sódio?

 

Sobre esse tema podemos analisar os resultados de um estudo [5] publicado em 2011. Ele teve como objetivo determinar se existia associação ingestão sódio e eventos doenças cardiovasculares em pessoas portadores de doença cardiovascular ou diabetes mellitus.

 

Esse trabalho considerou a ingestão de 4-5,9 gramas de sódio por dia com o valor e referência e avaliou o que acontecia quando a ingestão era aumentada para 7-9g/dia ou reduzida para <3g/dia. A ingestão de sódio aumentada (7-8g/dia) foi associada com um aumento do risco de ECV e redução do sódio (<3g/dia) foi associada com o aumento do risco da mortalidade por doenças cardiovasculares e de hospitalização por insuficiência cardíaca congestiva.

 

Este trabalho mostra que para portadores de diabetes e doenças cardiovasculares devem ter atenção com a uma ingestão se sódio que supere 7-8g/dia (17,5-20g/dia de sal) e também com a redução exagerada sódio para menos de 3g/dia (7,5g/dia de sal).

 

Outro aspecto importante sobre a redução da quantidade de sódio é que depois de analisar mais 6250 pessoas, pesquisadores do Reino Unido (6) não encontram nenhuma evidência forte de que cortar o sal reduza o risco de ataques cardíacos, derrames ou morte em pessoas com pressão normal ou elevada. As estimativas de benefícios da restrição de sal na dieta são consistentes com os pequenos efeitos previstos em eventos clínicos associados com pequena redução da na pressão arterial conseguida através da redução de sódio.

 

Que mensagem essas evidências passam?

 

As informações nos mostram que pessoas portadoras de diabetes e doenças cardiovasculares não devem ingerir muito sódio, como também devem ter uma ingestão mínima que fique entre 3-5 g/dia (7,5-10 g/dia de sal). Ingestão essa que pode ser observada pelas pessoas saudáveis.

 

Uma coisa muito importante que não pode deixar de ser dita! Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa a maior quantidade de sódio ingerida não tem como origem o saleiro. Mais de 70% do sódio ingerido na dieta ocidental atual vem dos alimentos ultraprocesados (7). Por, isso não se preocupe com o sal que você coloca no prato ou tempera sua comida, nosso paladar é capaz de regular o excesso de sal. Clique aqui e veja o ranking dos 100 alimentos com maior quantidade de sódio, você notará que a esmagadora maioria os alimentos da lista é ultraprocessado.

 

Então, você quer ingerir uma quantidade segura de sal? Para isso basta seguir as recomendações do Método Evolutivo sobre alimentação.

 

Abraço,

Carlinhos

 

 

Referências

[1] OMS divulga novas orientações no consumo de sal e potássio para adultos e crianças.

[2] Varela D. 2019. Relação entre o sal e pressão alta.

[3] Moyer WV. 2011. It's Time to End the War on Salt: The zealous drive by politicians to limit our salt intake has little basis in science.

[4] O'Donnell MJ, et al. 2013. Salt intake and cardiovascular disease: why are the data inconsistent? DOI: 10.1093/eurheartj/ehs409

[5] O'Donnell MJ, et al. 2011. Urinary Sodium and Potassium Excretion and Risk of Cardiovascular Events. DOI:10.1001/jama.2011.1729

[6] Taylor RS, et al. 2011. Reduced dietary salt for the prevention of cardiovascular disease: a meta-analysis of randomized controlled trials (Cochrane review). DOI: 10.1038/ajh.2011.115

 

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