Qual tipo de tênis escolher para correr?

 

 

Em 06/12/17 publiquei uma postagem com o título Não compre um tênis caro para correr! Isso não vai fazer a menor diferença! (veja aqui)

 

Nela escrevi sobre o crescimento da corrida desde os anos de 1970, sobre como a corrida fez parte da vida dos nossos ancestrais, como o Homo Erectus e Homo Habilis e obviamente também fez parte da nossa evolução como Homo Sapiens.

 

Escrevi também que populações atuais utilizam a corrida como forma de caça e de deslocamento, para finalizar discuti se toda tecnologia envolvida nos tênis de corrida atuais (tradicionais) realmente é importante para prevenção de lesões e/ou para desempenho.

 

Em uma série de postagens que iniciam hoje vou apresentar a tradução adaptada (não literal) de textos que tratam desse tema, escritos por Jim Hixson e que podem ser encontrados no site www.naturalrunningcenter.com.

 

Nesses textos o tema principal será a comparação entre os tênis minimalistas, solas finas e outras características que vocês irão conhecer, e os maximalistas (solas grossas).

 

Meu amigo e colega do Método Evolutivo, Fábio Bao, vai adorar!

 

Então vamos nessa!

 

Foi muito bom ver um aumento na oferta dos calçados minimalista, que são leves, finos, e flexíveis, nos últimos anos. Mas agora esse crescimento minimalista é ameaçado pelas forças do mercado. Analisei uma pesquisa feita por Peter Larson em 2014 (Runblogger.com) sobre os 20 tênis de corrida mais vendidos naquele ano, entre eles estavam os modelos Hoka: Clifton e Huaka.

 

Embora ambos tenham uma diferença na altura da sola entre os dedos e o calcanhar (diferença chamada de drop) de 2 mm e 4 mm, respectivamente, eles possuem uma sola grossa. Dois outros eram o Altra e o Oneand The Paradigm, que são drop zero, mas também possuem entre solas muito espessas.

 

Todos estes quatro modelos poderiam ser descrito como "maximalista", uma nova categoria que foi criada nos últimos dois anos, e que supostamente combina as características positivas dos tênis tradicionais de corrida e dos tênis minimalistas.

 

 

O que aconteceu para que os corredores tornassem os tênis com drop zero e com solas grossas tão populares, e, no processo, deixassem de lado os tênis minimalistas?

 

Os ultra corredores se focaram nos modelos tipo Hokas com solos espessas, sentindo que era necessário um amortecimento extra para salvar suas pernas das lesões, então as dores e lesões antigas pareciam ter ir embora.

 

Olhando mais atentamente para os tênis minimalistas, eles estão longe de estarem ultrapassados. A gangorra entre os tênis minimalista e os maximalistas provavelmente irá variar nos próximos anos e parece que com as tendências do marketing atual essa variação irá favorecer os maximalistas.

 

Quando a maioria dos corredores tentou a utilização dos tênis minimalistas pela primeira vez, eles estavam despreparados ou continuaram a correr com uma técnica ruim e não puderam colher os benefícios que pensaram ser possíveis.

 

Alguns desses corredores acabaram se lesionando devido a uma transição muito rápida e então voltaram para os tênis tradicionais com calcanhares elevados ou mudaram para os tênis maximalistas, sem perceber que um tênis maximalista não compensa a técnica ruim.

 

É claro que aqueles que fizeram a transição bem sucedida para os tênis minimalistas estão bastante felizes e continuarão a ser fieis, mas essa fidelidade não tem impedido muitas lojas removam completamente os tênis minimalistas de seus estoques.

 

Curiosamente, as vendas on-line dos tênis minimalistas continuam fortes e isso ocorre porque os corredores ainda estão interessados no conceito, mas também porque  as lojas de calçados diminuíram a disponibilidades desses calçados.

 

Na última década, o movimento minimalista prosperou, atingiu um patamar e iniciou um declínio. Embora tenha começado como uma “revolução” contra as “determinações” das grandes empresas de calçados de corrida (Adidas, ASICS, Brooks, Mizuno, New Balance, Nike, e Saucony), logo parecia que iria alterar radicalmente a indústria.

 

Ao mesmo tempo a força do movimento "minimalista" parecia estar crescendo tão rapidamente que não poderia ser interrompida, mas agora aqueles que defendem o conceito minimalista estão na defensiva novamente. A maioria dos corredores continua usando tênis de corrida tradicionais e muitas lojas de tênis não possuem ou nem conhecem marcas alternativas (Altra, lemas, Skora, Xero Shoes, Merrell, Newton, Topo, Vibram FiveFingers, e Vivo Barefoot).

 

Quando a Nike lançou o modelo Free Running em 2004 recebeu críticas, as pessoas e as organizações acharam estranho usar um tênis que havia sido projetado para que alguém corresse "naturalmente". Muitas lojas nunca sequer venderam o Free Running e a maioria daquelas que vendiam não conseguiam explicar sua finalidade, talvez porque ele nunca se encaixou em uma das categorias existentes.

 

Apesar de alguma excitação inicial na comunidade dos praticantes de corrida, o Free Running logo foi marginalizado e estes modelos acabaram sendo visto por muitos como uma moda passageira. A própria Nike teve uma reação acomodada em relação seu próprio produto, defendendo que corredores deviam usar o modelo Free Running e os tênis tradicionais em forma de revezamento.

 

Em 2009, de Chris McDougal publicou o livro Nascido para Correr, por se tratar de uma narrativa jornalística, pesquisas aprofundadas não foram realizadas. De repente, alguns corredores se tornaram receptivos ao conceito de calçados de corrida com solas mais planas e finas e começaram a questionar sua dependência dos tênis tradicionais.

 

Inicialmente eles eram oferecidos somente pelas empresas tradicionais, depois outros modelos foram oferecidos por novas empresas como a Vibram FiveFingers, Vivo Barefoot e Merrell que não estavam vinculadas ao estilo tradicional de tênis. Combinados com o Nike Free Running estes tênis acabaram criando uma nova categoria, os tênis minimalista. Mais tarde empresas como Lems, Altra e Skora criaram catálogos de tênis minimalistas.

 

As grandes empresas não reagiram no início, escolhendo ignorar a nova ameaça ou presunçosamente confiando em seus departamentos de marketing e na fidelização dos clientes para evitar qualquer tipo de prejuízo. Isto provou ser um erro grave, e em cerca de três anos os tênis minimalistas estavam sendo utilizados por 15% de todos os corredores recreacionais, uma porcentagem significativa das vendas totais de algumas das empresas de menor porte.

 

Isso fez com que as empresas tradicionais reagissem com uma campanha que foi relativamente unificada. É claro que é comum que instituições estabelecidas, como a indústria de calçados, proteja o seu mercado, de modo que este contra-ataque não foi incomum e era até mesmo era esperado.

 

Embora em 2011 Saucony tenha reduzido a diferença de altura entre o calcanhar e aponta do pé em todos os seus modelos, deixando 8 milímetros como a drop máximo, outras empresas mantiveram a sua linha tradicional sem alterações.

 

Mesmo que eles tenham utilizado novos materiais, novos desenhos e diminuído o peso dos seus modelos principais na tentativa de criar sua própria linha de tênis minimalistas, a maioria desses modelos não eram verdadeiramente minimalistas. O que essas empresas fizeram foi redefinir o termo tênis minimalista, para que ele incluísse seus modelos, e assim, fazer com os verdadeiros tênis minimalistas parecessem uma escolha perigosa, porque eles eram muito radicais.

 

Um esforço para defender os modelos tradicionais e desacreditar os modelos minimalistas, também foi empreendido através da mídia, em jornais, revistas, rádios, televisões, internet e revistas científicas. Muitas vezes, um representante de uma empresa de calçados participava de debates, os modelos tradicionais foram muitas vezes defendidos por "especialistas" cheios de boas intenções, mas que infelizmente pareciam não ter conhecimento sobre evolução humana, sobre biomecânica, e, aparentemente, não tinham experiência com o treinamento de corrida ou de outros esportes.

 

O argumento daqueles que defendiam os modelos tradicionais foi que correr em superfícies duras o nosso estado natural, com os pés descalços como ocorreu durante nossa evolução, era muito perigoso.

 

Os pressupostos das empresas de calçados e os meios de comunicação fizeram um péssimo trabalho na tentativa de explicar e fazer as pessoas compreenderem as questões envolvidas nessa discussão, fazendo que os tênis de corrida modernos (ou "tradicionais") fossem vistos com capazes de reunir as demandas de corredores de longa distância, protegendo seus pés e articulações.

 

Enquanto os tênis minimalistas passaram a serem vistos como sendo "quase com correr com os pés descalços" e, provavelmente, muito perigosos para a maioria dos indivíduos.

 

Dependendo do terreno de corrida essa crítica poderia ter tido algum mérito, mas a afirmação implícita de que o pé humano não é adequado para a corrida descalço, porque é fraco realmente não possuía nenhum mérito.

 

Segundo estas empresas, a não ser que o tênis de corrida tivesse uma meia-sola grossa com um calcanhar elevado para proteger o pé do choque do contato inicial com o solo, um corredor era susceptível a se lesionar. Nenhumas dessas afirmações já foram apoiadas por qualquer pesquisa científica.

 

Na verdade dois pontos são interessantes, primeiro não houve diminuição da incidência ou gravidade de lesões relacionadas com a corrida nas últimas quatro décadas, no mesmo período, mesmo que as empresas de calçados de corrida tenham feito diversas “melhorias” em seus modelos a cada ano.

 

Segundo, os melhores corredores de longa distância do mundo vinham de culturas onde os sapatos não eram frequentemente usados até que um corredor se tornasse bastante habilidoso.

 

Sempre as duas alternativas (minimalistas e maximalistas/tradicionalistas) foram apresentadas pela mídia como alternativas viáveis, o ônus da prova de sua eficácia segurança sempre ficou do lado dos calçados minimalistas. Infelizmente, o ponto mais enfatizado por ambos os lados foi à forma com o pé deve tocar o solo (tipo de pisada), com os tradicionalistas apoiando a pisada com o calcanhar, e os minimalistas apoiam a pisado com o pé médio ou porção anterior de pé.  Existem dois problemas nesse debate.

 

Em primeiro lugar, os termos "pisada com calcanhar", "pisada com pé médio" e "pisada a porção anterior do pé" nunca foram especificamente definidos, e ambos os tipos de corredores e defensores de cada lado possuíam diferentes imagens em suas mentes quando ouviam ou usavam estes termos durante os debates.

 

Quando o corredor desloca o membro inferior para frente, ao tocar o calcanhar no solo o joelho deve estar estendido? Será que a "pisada de médio pé" exige que toda sola do pé entre em contato com o solo ao mesmo tempo? Na “pisada com a porção anterior do pé” os dedos tocam o solo primeiro? Onde fica a pé na relação com o resto do corpo quando este entra em contato com o solo? Eram dúvidas existentes.

 

 

Em segundo lugar, o objetivo principal dos tênis minimalistas não era permitir que o pé toque o solo de determinada forma, era sim permitir e incentivar que os corredores utilizassem a técnica correta. O termo "corrida natural" foi muitas vezes usado como um substituto para a expressão "técnica de corrida correta", uma vez que a maioria dos defensores dos tênis minimalistas considerasse que "corrida natural" é a técnica correta, mas esta relação raramente foi explicada.

 

De fato, alguns "minimalistas", chegaram a admitir que um corredor usando sapatos tradicionais e usando a pisada com o calcanhar apresentariam pouca necessidade de alterar a técnica de corrida, desde que um não se lesionasse. No entanto, a técnica de corrida é a variável mais estreitamente relacionada com as lesões.

 

Outra questão que influenciou o debate foi o correr descalço. Normalmente, esse tema não tomava mais do que alguns segundos das afirmações dos defensores dos tênis tradicionais, muitas vezes ajudados por alguém da mídia, para confundir o uso de tênis minimalistas com o correr descalço.

 

Embora existam muitas vantagens em dominar a técnica e incluir o correr descalço em uma rotina de treinamento, era fácil atacar esta prática como sendo fora dos limites normais e seguros de comportamento, em um esforço rápido e efetivo para desestimular o uso de tênis minimalistas, que foram muitas vezes até mesmo referidos como "tênis para correr descalço."

 

Infelizmente esta abordagem tornou-se a mais fácil, pois as lesões associadas com o uso de tênis minimalistas e com o correr descalço começaram a serem relatadas.

 

Raramente foram feitas tentativas de explicar ou entender a origem dessas lesões, apesar de ter sido óbvio para um observador com alguma compreensão da biomecânica que as pessoas que se lesionaram, independente da atividade física, ou eram fisicamente despreparados ou utilizavam a técnica incorreta.

 

A partir de 2012, o interesse em tênis minimalistas atingiu um platô e, eventualmente, até diminuiu, embora a maioria dos corredores que tinham feito a transição com sucesso nunca terem considerado a uso de tênis tradicionais novamente.

 

Para os corredores que nunca haviam tentado trocar os tênis tradicionais, bem como aqueles que tentaram sem sucesso fazer a transição para os tênis minimalistas, os tênis tradicionais foram capazes de manter ou reconquistar a sua fidelidade.

 

Outros corredores decidiram que várias das características dos tênis minimalistas eram atraentes, mas talvez eles precisassem de um pouco mais de amortecimento. Estes indivíduos têm utilizado, com já mencionado, os tênis maximalistas, acreditando equivocadamente que podem combinar as características positivas de tênis tradicionais e minimalistas.

 

Então, como devem aqueles que optaram pelos tênis minimalista defenderem a sua escolha?

 

Que lógica seria suficiente para convencer outros corredores a questionar a sua dependência dos tênis tradicionais?

 

Pode o movimento minimalista ser revigorado? Ou será que é tarde demais?

 

Essas são importantes perguntas que serão abordadas na Parte Dois.

 

Grande abraço,

Carlinhos Salerno

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