Teria a COVID19 menor impacto nos anos de 1970?

No dia em que escrevo essa postagem as informações oficiais do governo americano indicam que a Covid19 foi responsável por 105.157 mortes (link).

 

Esse realmente é um número que nos choca, ainda mais quando vemos que esse valor é quase 2,5 vezes maior que o valor do segundo país com maior número de mortes, o Reino Unido, que apresenta um total de 39.369 óbitos (link).

 

Aqui no Brasil atingimos no dia de hoje um total de 29.937 mortes pela Covid19 (link), que é um número bastante representativo. Número de óbitos que nos deixa atrás da Itália 33.530 (link), e na frente da França e da Espanha que apresentam 28.940 (link) e 27.127 (link) óbitos, respectivamente.

 

Esses 6 países representam 69% de um total mundial de 380.593 mortes por Covid19 (link), enquanto se somarmos suas populações (link) veremos que representam cerca de 10,1% da população mundial (7,7 bilhões de pessoas).

 

Poderíamos inferir que uma porção representativa destas populações tem a possibilidade de viagens internacionais, são também países que recebem turistas e possuem cidades com grande densidade populacional, fatores que podemos considerar como importantes para uma maior disseminação do vírus.

 

Contudo, existe outro aspecto em comum entre esses países, níveis significativos de obesidade, sobrepreso e consequentemente excesso de gordura corporal. Vejam a tabela que segue.

 

 

Estes dados nos fazem pensar, como hipótese, seria o excesso de gordura corporal um fator de risco significativo para casos graves e óbitos por Covid19?

 

Teria a Covid19 atingido esses países com o mesmo número de mortes caso ela tivesse surgido nos anos de 1970? Quando as taxas de sobrepeso e obesidade eram menores.

 

 

Essa afirmação faria sentido?

 

Existiriam evidências que nos fazem pensar na existência de plausibilidade para essa hipótese?

 

Acredito que sim! Vamos dar uma “olhada nisso”?!

 

PONTO 1 - Excesso de gordura corporal aumenta o risco de complicações por infecção viral.

 

Considerando nossas 27 capitais estaduais, 55,4% dos brasileiros acima de 18 anos têm sobrepeso e 20,3% são obesos, isso significa que somente 24,3% na nossa população adulta possuem peso normal (6). Essa informação coincide com uma epidemia de sobrepeso e obesidade que ocorre pelo mundo, estima-se que algo entre 62% e 74% da população mundial está fora do peso adequado (7).

 

Considerando a saúde geral da população brasileira, e mundial, isso pode representar um elevado risco, já que existe uma forte associação entre sobrepeso e obesidade com uma grande variedade de patologias, como doenças cardiovasculares (8), hipertensão (9), diabetes (10, 12), doenças respiratórias crônicas (13) e câncer (14).

 

Além da associação com as doenças não transmissíveis, o sobrepeso e a obesidade também podem ser considerados fatores de risco significativos para as doenças transmissíveis (15-20). Seja essa doença bacteriana, como a infecção por pneumococo (17) e infecções da corrente sanguínea (18, 19) ou gripe, como H1N1 (14-17), e outras viroses respiratórias (20).

 

Entre 2009 e 2010 passamos também por uma epidemia, foi a epidemia da nova gripe A (H1N1), uma variação do vírus influenza que atingiu mais de 120 países, diferentes trabalhos (14-17) mostraram que a obesidade foi um fator de risco para casos graves e óbitos. Entre 20/5 e 11/8 de 2009, no estado americano da Califórnia ocorreram 534 casos de H1N1 entre adultos, 43% tinham menos de 50 anos e 51% tinham IMC ≥ 30. Dos 92 óbitos ocorridos, a obesidade estava presente em 90% (12).

 

Considerando os dados de 19 países (Argentina, Austrália, Canadá, Chile, China, França, Alemanha, Hong Kong, Japão, Madagascar, México, Holanda, Nova Zelândia, Cingapura, África do Sul, Espanha, Tailândia, Estados Unidos e Reino Unido) entre 2009 e 2010 foram registradas aproximadamente 70.000 hospitalizações por H1N1. Depois da análise dos registros hospitalares Kerkhove e colaboradores (15) mostraram que a obesidade aumentava as chances de hospitalização e morte.

 

A obesidade está também associada como a maior capacidade de transmissão do vírus influenza A. Considerando três períodos entre 2015 e 2017 em Manágua, na Nicarágua (17), foi demonstrado que os adultos obesos sintomáticos podiam transmitir o vírus influenza 42% mais que os não obesos. Entre os assintomáticos, a obesidade aumentou a duração da capacidade de transmissão do vírus influenza A em 104%.

 

Esses efeitos da obesidade também ocorrem sobre os outros tipos de gripe. Isso foi demonstrado pela analise uma base populacional de 66.820 pessoas, que foram acompanhadas entre 1998 e 2012 (16). Neste trabalho foi estimado o impacto da influenza sobre as taxas de mortalidade respiratória considerando a presença de outras doenças, fatores meteorológicos, outros tipos de vírus respiratórios presentes e a obesidade. O efeito da influenza sazonal foi 19% maior em indivíduos obesos do que indivíduos com peso normal, mostrando que a obesidade agrava o efeito da influenza sazonal na mortalidade respiratória.

 

PONTO 2 - Por qual razão a obesidade pode amentar o risco de uma infecção viral?

 

A resposta simples é que o excesso de gordura corporal deixa o sistema imunológico menos eficiente. Mas, vamos dar uma olhadinha na resposta um pouco mais complexa.

 

A gordura corporal (tecido adiposo) tem funções importantes como compor estruturas celulares, fornecer energia, fazer isolamento térmico, sintetizar hormônios e servir de meio de transporte paras as vitaminas A, D, E e K. Como já foi demonstrado, o problema está no excesso de gordura corporal que está associado com o comprometimento da nossa saúde.

 

O tecido adiposo tem ação importante nosso metabolismo, agindo com um órgão endócrino (21) e influenciando a síntese e secreção de vários hormônios que controlam diferentes processos, como controle da ingestão de alimentos, controle da sensibilidade à insulina e o sistema imunológico.

 

Dentre as substâncias que o tecido adiposo secreta está um grupo de citocinas, chamadas de adipocinas, que são proteínas e regulam o comportamento de outras células que possuam os receptores adequados. Algumas dessas adipocinas são reguladoras do sistema imunológico, quando uma pessoa apresenta excesso de gordura corporal ocorrem alterações significativas dessas adipocinas e que podem ser a causa do comprometimento do sistema imonulógico (23, 24).

 

O excesso de gordura gera um estado inflamatório basal que impede uma resposta antiviral adequada, as respostas imunes inatas e adaptativas são prejudicadas, permitindo maior disseminação viral, infecções prolongadas,  propagação viral descontrolada, levando a caso agravados e muitas vezes letais (24). Outro dado importante é que mesmo após essa infecção ter sido curada fica aumentada a suscetibilidade a outras infecções e prejudicada a cicatrização do tecido pulmonar (24).

 

É por essas razões que o excesso de gordura corporal deve ser evitado, dessa forma aumentaremos a qualidade de vida, diminuiremos a probabilidade do surgimento de doenças não transmissíveis e também teremos a chance de diminuir os riscos ligados às doenças infecciosas, sejam elas virais ou bacterianas.

 

PONTO 3 - Existe alguma associação entre excesso de gordura corporal e Covid19? Parece que sim!

 

Até o dia 21 de maio 8.344 foram internadas por Covid19 nas unidades de cuidados intensivos da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte (25). Estes pacientes apresentaram a seguinte distribuição em relação ao IMC (veja o quadro).

 

 

Ao analisarmos o quadro podemos perceber que 73,6% dos casos internados tinham excesso de gordura corporal por estarem acima do peso, serem obesos ou obesos mórbidos.

 

A taxa de mortalidade por Covid19 aumenta com o aumento da idade, nos EUA até 16 de março a maior taxa ocorreu entre as pessoas com idade ≥85, variando de 10% a 27%, seguida de 3% a 11% entre as pessoas de 65 a 84 anos, 1% a 3% entre as pessoas de 55 a 64 anos, <1% entre as pessoas de 20 a 54 anos e nenhuma mortalidade entre as pessoas com idade ≤ 19 anos (26).

 

Números semelhantes também são observados na Europa, como mostram os dados da Espanha (27) que aparecem no quadro abaixo.

 

 

Como mostram os dados, entre as pessoas jovens as taxas de mortalidade por Covid19 podem ser consideradas muito pequenas, existe a possibilidade de que entre os jovens que faleceram até o momento o excesso de gordura corporal tenha sido um fator agravante do quadro e de aumento da mortalidade.

 

Um estudo retrospectivo (28) incluiu 13 pacientes jovens que morreram de COVID-19 e 40 sobreviventes. Entre aqueles que faleceram o IMC médio era 27,8 e entre os que se recuperam era de 23,3. Os que faleceram também apresentaram maior grau de inflamação e lesão cardíaca em comparação com os sobreviventes. Mostrando que a o excesso de peso e gordura corporal pode ser um fator de risco associado à mortalidade em pacientes jovens com COVID-19.

 

Colaborando com essa informação na cidade de Nova York foram avaliados os dados de 3.406 pacientes com o vírus SARS-CoV-2 entre 1º de março e 17 de maio de 2020 (29), entre esses 572 (17,0%) dos pacientes tinham menos de 50 anos e houve 60 óbitos (10,5%). Para a população mais jovem, o IMC acima de 40 foi associado independentemente à mortalidade. Esses dados demonstram que entre pacientes hospitalizados com menos de 50 anos aqueles com obesidade têm maior probabilidade de morrer por COVID-19.

 

PONTO 4 – Saúde metabólica! Pode ser a conexão entre os fatores de risco para Covid19.

 

Fatores como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e inflamação crônica, além de estarem associados coma o excesso de gordura corporal (9-12), também são fatores de risco para complicações e óbitos decorrentes da Covid19 (30-32).

 

Quando 191 pacientes chineses foram estudados (30), 54 faleceram no hospital, 91 deles (48%) pacientes apresentavam outras doenças, com hipertensão (30% pacientes), diabetes (19%) e doença cardíaca (8%). Estes dados combinam com a análise de sete diferentes estudos (31) mostrou que as comorbidades prevalentes foram hipertensão (21,1% em pacientes), diabetes (9,7%), doença cardiovascular (8,4%,) e doença respiratória (1,5%). Quando foram comparados os pacientes graves e não graves, os dados mostraram que hipertensão, doença respiratória e doença cardiovascular aumentavam o risco de 2-3 vezes (32).

 

Entre as comorbidades citadas e o excesso de gordura corporal, seja por excesso de peso ou obesidade, existe um fator em comum, uma desregulação no metabolismo da insulina que tem associação com a diminuição da saúde metabólica e o metabolismo da glicose (açúcar). Recentemente foi demonstrada a ligação entre os mecanismos endócrinos e metabólicos do diabetes tipo 2 e o contágio por  Sars-Cov2, assim como o maior risco de hospitalização por Sars-Cov (33), um outro vírus da família dos Coronavírus.

 

Considerações Finais

 

As informações que mostrei neste texto não são capazes de provar uma relação de causa entre o excesso de gordura corporal e maior risco decorrente do contágio por Sars-Cov2, mas elas demonstram sim a plausibilidade biológica da associação entre excesso de gordura corporal e complicações metabólicas com essa e outras doenças virais.

 

Existe a possibilidade de que se uma grande parte da população mundial tivesse outro estilo de vida, com diferentes hábitos de alimentação e atividade física, a Covid19 tivesse sido menos letal do que tem sido até agora.

 

Mesmo que isso seja verdade, caso as pessoas estivessem mais saudáveis, outras doenças estariam matando menos.

 

Entre essas doenças podemos citar as doenças cardiovasculares, que segundo a Organização Mundial de Saúde foram responsáveis por 17,6 milhões de mortes em 2016, representando 31% de todas as mortes daquele ano (34).

 

Referências

Observação: Caso você tenha dificuldade em encontrar alguma referência, escreva para contatometodoevolutivo@gmail.com e irei lhe ajudar.

 

[1] https://www.cdc.gov/nchs/fastats/obesity-overweight.htm

[2] https://digital.nhs.uk/data-and-information/publications/statistical/statistics-on-obesity-physical-activity-and-diet/england-2020/part-3-adult-obesity-copy

[3] https://www.diabete.com/wp-content/uploads/2019/04/OBESITY-BAROMETER-REPORT-4-4-2019-LOW.pdf

[4] https://www.oecd.org/fr/els/systemes-sante/obesityandtheeconomicsofpreventionfitnotfat-spainkeyfacts.htm

[5] https://www.oecd.org/els/health-systems/obesityandtheeconomicsofpreventionfitnotfat-francekeyfacts.htm

[6] Vigitel Brasil 2019. Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico : estimativassobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019.

[7] Maffetone PB, Laursen PB. 2020. Revisiting the global overfat pandemic.

[8] Csige I, et al. 2018. The Impact of Obesity on the Cardiovascular System.

[9] Seravalle G, Grassi G. 2017. Obesity and Hypertension.

[10] Chobot A, et al. 2018. Obesity and diabetes-Not Only a Simple Link Between Two Epidemics.

[11] Sarit Polsky S, Ellis SL. 2015. Obesity, Insulin Resistance, and Type 1 Diabetes Mellitus.

[12] Poulain M, et al. 2006. The effect of obesity on chronic respiratory diseases: pathophysiology and therapeutic strategies.

[13] Lauby-Secretan B, et al. 2016. Body fatness and cancer–viewpoint of the IARC Working Group.

[14] Janice K, et al. 2011.  A Novel Risk Factor for a Novel Virus: Obesity and 2009 Pandemic Influenza A (H1N1).

[15] Van Kerkhove MD, et al. 2011. Risk factors for severe outcomes following 2009 influenza A (H1N1) infection: a global pooled analysis.

[16] Zhou Y, et al. 2015. Adiposity and influenza-associated respiratory mortality: a cohort study.

[17] Maier HE, et al. 2018. Obesity Increases the Duration of Influenza A Virus Shedding in Adults.

[18] Paulsen J, et al. 2017. Associations of obesity and lifestyle with the risk and mortality of bloodstream infection in a general population: a 15-year follow-up of 64 027 individuals in the HUNT Study.

[19] Frasca D, McElhaney J. 2019. Influence of Obesity on Pneumococcus Infection Risk in the Elderly.

[20] Moser JAS, et al. 2020. Underweight, overweight, and obesity as independent risk factors for hospitalization in adults and children from influenza and other respiratory viroses.

[21] Coelho M, et al. 2013. Biochemistry of adipose tissue: an endocrine organ.

[22] Polito R, et al. 2018. Adiponectin and Orexin-A as a potential immunity link between adipose tissue and central nervous system.

[23] Salvator H, et al. 2020. Contrasting Effects of Adipokines on the Cytokine Production by Primary Human Bronchial Epithelial Cells: Inhibitory Effects of Adiponectin.

[24] Polito R, et al. 2018. Adiponectin and Orexin-A as a potential immunity link between adipose tissue and central nervous system.

[25] ICNARC: report on COVID-19 in critical care 22 May 2020.

[26] Severe Outcomes Among Patients with Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) — United States, February 12–March 16, 2020.

[27] SECRETARIA GENERAL DE SANIDAD DIRECCIÓN GENERAL DE SALUD PÚBLICA, CALIDADE INNOVACIÓN. Actualización nº 52. Enfermedad por el coronavirus (COVID-19). 22.03.2020

[28] Zhang F, et al. 2020. Obesity Predisposes to the Risk of Higher Mortality in Young COVID-19 Patients.

[29] Klang E, et al. 2020. Morbid Obesity as an Independent Risk Factor for COVID-19 Mortality in Hospitalized

Patients Younger than 50.

[30] Zhou F, et al. 2019. Clinical course and risk factors for mortality of adult inpatients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective cohort study.

[31] Yang J, et al. 2020. Prevalence of comorbidities in the novel Wuhan coronavirus (COVID-19) infection: a systematic review and meta-analysis.

[32] Guan WJ, et al. 2020. Clinical characteristics of coronavirus disease 2019 in China.

[33] Bornstein SR, etal. 2020. Endocrine and metabolic link to coronavirus infection.

[34] https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/cardiovascular-diseases-(cvds)

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